quarta-feira, julho 23

O Disco do Justus Levado a Sério


Amigos, amigos, estou ouvindo o disco de Roberto Justus, Só Entre Nós, lançado recentemente pela Sony/BMG. Fico pensando em como o mundo é um lugar interessante e irônico.

Justus é um empresário bem sucedido do ramo de comunicação que surgiu para a mídia nos anos 90, após casar-se com a apresentadora de TV Adriane Galisteu. Não deu certo. Depois casou-se com outra loura falante da TV, Eliana, aquela que cantava uma música falando sobre os dedinhos. Não deu certo. Hoje ele é o marido da filha da Garota de Ipanema, Ticiane Pinheiro.

Ele também é o CEO do Grupo Newcomm, uma das maiores empresas nacionais no ramo de cases e coisas que versam sobre o assunto comunicação. Imagino que empresas como essa sejam responsáveis pela banalização da comunicação empresarial, pelo anglicanização da publicidade, pela adoção da filosofia de trabalho calcada em palavras e conceitos subjetivos como “empreendedorismo”, “proatividade”, “alavancar negócios”, "target", "budget", enfim, pelo teatro de vaidades que existe nesses lugares.

Bem, sou intencionalmente leigo nesses aspectos e minhas opiniões podem ser motivo para a criação de um case sobre a desinformação, mas, uma coisa lhes garanto, amigos, eu gosto do Justus não por ser bem sucedido, mas por ser um cara que não tem medo de pagar micos. Seu disco é um mico, um King Kong, um elefante branco tão grande que me atraiu a atenção a ponto de merecer um texto, hum, sério sobre os motivos que o levaram a existir. O homem gravou clássicos do cancioneiro mundial com uma baita cara-de-pau. Uma olhada no site da Saraiva e me deparo com o seguinte textinho sobre o Só Entre Nós:

“Em 2007 Justus foi convidado para fazer uma participação no show de um amigo e o que era para ser apenas uma brincadeira acabou se tornando uma coisa séria. Como em todos os seus negócios, Justus colocou todo seu empenho na gravação de seu primeiro CD intitulado “Just Between Us”. Justus produziu uma tiragem limitada de apenas duas mil unidades e o álbum tornou-se objeto de desejo entre seus fãs. Este álbum chega agora pela SONYBMG com seu nome em português Só Entre Nós, mas com o mesmo repertório: os grandes sucessos da musica internacional.”

Sentiram a ironia com o título em inglês quase formando o nome JUSTUS? Just Between Us? Viram o tino comercial mambembe para a coisa? Quase posso ver executivos – como os que ele demite em O Aprendiz – pensando nas possibilidades de nomes e imaginando como agradar o homem. Mas existe muita coisa sobre o disco que o mundo precisa – ou não – saber.


O repertório avilta e joga na lama do mau gosto momentos de Beatles, Louis Armstrong, Rod Stewart, Elvis Presley, Elton John, Frankie Valli, Nat King Cole, Frank Sinatra, Mamas & Papas, em seus sucessos mais manjados, banalizados e pasteurizados, levados a cabo por uma big band de dez pessoas, comandada pelo talento musical de Afonso Nigro, o produtor. Para quem não sabe ou não lembra, Nigro já foi líder do Dominó, famosa boy band brazuca oitentista que grassou na parada de sucesso nacional com canções que escorraçavam a inteligência da nossa juventude. Dizem que Gugu Liberato estava por trás do Dominó, ou vice-versa, enfim, Nigro é o maestro do disco de Justus e executa todas as composições como se fossem uma só.

O modelo a ser seguido é daquelas bandas de baile, nas quais o teclado faz a diferença e dá essa impressão de uniformização do mal. Sem noção de arranjo ou interpretação, Entre Nós flui como um desses eventos de engravatados e emproadas, regado a muita aparência e bebidas espumantes, tudo muito brega e constrangedor.

Veja a inclusão de “Perhaps Love” no repertório. Ela figurou num disco obscuro do cantor country John Denver gravado em 1983, mas foi recolocada no mapa como trilha sonora de um comercial no início dos anos 90. Com a participação do tenor espanhol Plácido Domingo na gravação original, “Perhaps Love” é "interpretada" no disco de Justus por Agnaldo Rayol. A sutileza do dueto de Denver e Domingo é transformada num engalfinhamento estético de Justus com Rayol, certamente pensando apenas na objetividade funcional, ou seja, a voz pop e a voz erudita, apenas isso.

Em “Tonight’s The Night”, de Rod Stewart, nosso amigo Roberto conta com a participação imperdoável (mais uma para a extensa coleção) de Paulo Ricardo. Justus deve ter pensado: essa canção é rock, precisa de alguém totalmente rock para dar veracidade à minha interpretação. Paulo Ricardo também participa da execução sumária de “Your Song”, de Elton John. Dizem ainda que os discos American Songbook, de Rod Stewart, serviram de inspiração para o conceito de Só Entre Nós. É possível.

As primeiras duas mil cópias foram compradas pela Daslu, famosa boutique paulistana para serem dadas como presente para os clientes mais assíduos. O que pensar disso? Você gasta uma fortuna na loja e ganha Justus trucidando clássicos do pop internacional? Anti-marketing? Quem compra na Daslu, conhecida por envolvimentos com sonegação fiscal, talvez mereça mesmo um disco desse quilate.

O mau gosto, senhoras e senhores, chegou a um ponto de não retorno. Os conceitos do que é bom e ruim, cool e brega foram levados a um extremo que permite essas situações. Essa gente que pensa e age como se estivesse em outro país, mostra a total incompetência para manifestar-se de uma maneira artística, quando é necessário.

É engraçado ver Justus na televisão demitindo as pessoas que participam de seu programa, ainda que ele seja uma versão tupi de The Apprentice, show americano que traz Donald Trump como o empresário durão e mauzão. O laquê de Justus é fichinha perto do cabelo aerodinâmico de Trump. Ouvir Justus, entretanto, só como piada. De gosto duvidoso, claro.

Você pode dizer: esse tal de CEL é um cara despeitado, malhando o executivo bem sucedido com essas noções de crítico musical. Então ele não sabe que o Justus não deve ser levado a sério como cantor? Deve ganhar num mês o que Justus ganha em um minuto. Se você pensou isso, não está errado, pelo menos no que diz respeito aos vencimentos. De resto, é preciso que alguém se manifeste com o mínimo de propriedade sobre um evento – ou case – dessa natureza. Um disco do Justus, senhoras e senhores, é a abertura de um buraco negro na música, seja ela pop, rock ou para boi dormir.

Track list:

- What A Wonderful World

- I’ve Got You Under My Skin

- Unforgettable – dueto com Cathy Justus Fischer

- Yesterday

- Perhaps Love – dueto com Agnaldo Rayol

- Can’t Take My Eyes Off Of You

- Always On My Mind

- Your Song – dueto com Paulo Ricardo

- Tonight’s The Night – dueto com Paulo Ricardo

- Something

- My Way

- California Dreamin’


19 comentários:

giancarlo rufatto disse...

acabou com always on my mind...


atentem para o nome da filha (imagino que seja) "Cathy Justus Fischer" e acrescente um C depois do T e vira nome de boxeador.

Marcela Costa disse...

Cel, só você mesmo para ter a pachorra de ouvir o disco inteiro do Justus. Invejo a sua disposição, amigo, invejo mesmo. Beijos,

Marcela

CEL disse...

Marcela, tudo pelo profissionalismo!! Eu não poderia falar do disco do sujeito sem ouvir, mesmo sabendo que seria exatamente isso...

Gian, meu caro, o Justus não perdoou nenhum standard. Nenhum.

Cláudia Reitberger disse...

G-E-N-I-A-L esse texto.

Brilhantines disse...

Santa paciência, Cel! Mas nem esse video do Youtube deu pra ver inteiro...hehe...
Abraços.

Neto

Malavoglia disse...

ninguém seria capazes de definir o que pra mim é a audição do inferno. ou do prgatório, se não tivessem acabado com ele.

Ricardo Chaker disse...

meu deus, não tenho coragem de ouvir!
texto genial mesmo! haha

zeca disse...

Texto de mestre! Aliás, o blog está muito bom, CEL. Já sou fã.

Rodrigo disse...

Perfeito o texto!

Circula pela rede uma cópia em mp3 de estonteantes 20 kbps de qualidade. Talvez quem gerou as mp3 tenha ficado constrangido de usar qualidade pra esse disco. :)

CEL disse...

Pois então, eu estava ouvindo essas milagrosas mp3 para o texto.

giancarlo rufatto disse...

em 20kb? passa pra roda, deve ser otimo, justus lo-fi.

CEL disse...

Na comuna Discografias do Orkut tem, Gian. Vale a pena. Quer dizer, bem...

Maria disse...

O pior é que, enquanto ele escrevia o texto, eu também tive que ouvir tais pérolas... Reclamei horrores!!!! rs

FredFre disse...

Putz... minha curiosidade me leva a cada roubada... a audição desta versão em dia de ressaca seria perfeita. Algo como "ouça-e-vá-correndo-pro-banheiro-que-melhora-rapidinho!"

Belíssimo texto, CEL. Muito bom mesmo.

jwagner disse...

cara, vc REALMENTE teve coragem de ouvir esse álbum?! parabéns, parabéns... rs

Mel disse...

HAHAHAAHAHHAHAAHAH....FODA.


'despeitado'...ADOREI rs


ps: coitada da Maria rsrs



bjos querido.

Juliane disse...

O pior é ver só a Ticiane vibrando no sofá!

Eduardo Abreu disse...

Perfeito, CEL. O Justus é um tremendo panaca. A audácia do cara em regravar esse repertório é digna de aplauso. Mas minha maior dúvida é a seguinte: quem, em sã consciência, vai preferir ouvir as versões do Justus às originais?! Só isso já faz com que a existência do CD perca o sentido. Pra mim, ele já está demitido.

Anônimo disse...

bom, eu gostei do cd. e um classico desde ja no "anais" da historia da industria musical...