sexta-feira, julho 11

WALL-E - Nasce Um Clássico


WALL-E, o novo filme da Disney/Pixar é um clássico. Supera facilmente outras realizações como Procurando Nemo ou Carros e periga destronar os quase insuperáveis Monstros S.A e Os Incríveis.

A sigla, que significa Waste Allocation Load Lifters – Earth Class (algo como “lixeiro classe Terra”) é o indicativo do que será visto na tela. O planeta foi abandonado, transformou-se num imenso vazadouro de lixo, após séculos de maus usos pela Humanidade. Nesse cenário surge WALL-E, o último de sua série, ainda vagando por uma paisagem especialmente desolada, pontuada por pilhas enormes de lixo, que ele mesmo constrói sistematicamente. Sua única companheira é uma pequena barata, que vive feliz em meio ao lixão global.

Sua rotina de sete séculos de coleta de lixo acabou por danificar algum circuito cognitivo, o que conferiu ao pequeno robô um “defeito” peculiar: personalidade. WALL-E desenvolveu carinho pelos objetos que coleta e, por conseqüência, pela humanidade. Ele vê trechos do mesmo filme toda noite (“Bonequinha de Luxo”, que empresta sua canção “Put On Your Sunday Clothes” para a abertura do longa) e sonha com um mundo diferente. Podemos dizer que WALL-E sente saudades de um mundo que ele não conhece completamente, algo que o faz sentir-se pequeno.

Um belo dia a senha para essa mudança aparece na forma de uma visitante inesperada. EVE, uma sonda-robô desembarca nas vizinhanças e começa a vasculhar o cenário, em busca de algo. O encantamento é imediato e WALL-E não mede esforços para permanecer próximo de EVE, mesmo depois que alguns fatos acontecem.

As referências existenciais no filme são um prato cheio para a elaboração de teorias mil sobre o que vemos na tela. As metáforas são muitas e preciosas. A preocupação com a ecologia é o pano de fundo para toda a ação. É curioso que o filme mostre máquinas como guardiãs de aspectos diferentes da vida humana, seja a busca por melhorias como a determinação de manter tudo em seu lugar, confrontando as opiniões quase o tempo todo.

A solidão de WALL-E é sentida facilmente ao longo do filme. É uma condição que não foi fruto de escolha, mas mostra o quanto é possível permanecer em uma realidade opressora que permita sonhos e aspirações, que vêm, ironicamente, em forma de “defeito”. Há referências na cultura pop sobre como esses enfoques diametralmente opostos sobre a presença de máquinas no cotidiano do ser humano, definindo e transformando o mundo que ele habita. Dou três exemplos:

Donald Fagen, integrante do duo Steely Dan, lançou seu primeiro disco solo em 1981, The Nightingale, um trabalho praticamente conceitual sobre as visões de futuro que o mundo experimentava na época. Era um fato a ser consumado que as máquinas poderiam resolver todos os problemas do ser humano, facilitando sua vida a tal ponto que ele teria tempo de sobra para ser mais feliz.


A Trilogia Matrix (especialmente o primeiro filme) traça um painel assustador de um mundo que foi dominado pelas máquinas, não as simpáticas criações que Donald Fagen pensou, mas seres conscientes e especialmente cruéis com o homem.

Em 1971 Marvin Gaye lançava seu disco chave, What’s Going On. Foi a obra-prima definitiva da carreira do cantor, constituindo um feixe de canções cheias de questionamentos sobre o mundo, a sociedade e o futuro, sob uma perspectiva que oscilava entre o realismo e o pessimismo. Em “Mercy Mercy Me”, Marvin Gaye fala de oceanos poluídos, rios cheio de mercúrio, superpopulação e uma série de conseqüências que os maus tratos ao planeta podem trazer.

Voltando. O filme da Pixar condensa diferentes visões da mesma moeda, azul e branca, cada vez mais suja e mal administrada, não poupando o ser humano da redução ao papel mais humilhante já visto num desenho animado. Detalhes tão pequenos como o uso inteligente do silêncio e uma bela canção inédita de Peter Gabriel (“Down To Earth”) na trilha fazem de WALL-E uma pequena revolução na linguagem do desenho animado. Mais que uma obra de animação, o diretor Andrew Stanton (que dirigiu Procurando Nemo) obteve um belíssimo filme, capaz de disputar prêmios com histórias cheias de personagens de carne e osso. WALL-E pode ser mais humano que quase tudo lançado em 2008.

Antes que eu me esqueça: é preciso avisar às platéias de filmes como WALL-E que nem todo longa-metragem de animação é, necessáriamente, engraçado e feito para provocar risos do espectador.

O Que Steve Jobs Tem A Ver Com Isso?

A cada nova história contada pela visão impressionante da Pixar, os conceitos de animação precisam ser revistos ou, no mínimo, ampliados, tamanha é a grandeza do espetáculo colocado nas telas.

A evolução desde Toy Story (1995) é notável e merece um pouco de história. A existência da Pixar inicia-se em meados dos anos 80, como uma subsidiária da Lucasfilm. Em 1986, Steve Jobs (sim, ele mesmo, o dono da Apple) comprou a empresa e a tornou independente, o que facilitou a aproximação com os Estúdios Disney. A realização de Toy Story marcou o inicio da colaboração entre as duas partes, o que traria uma seqüência de lucros e prêmios cada vez mais expressivos, chegando a totalizar treze Oscars e três Globos de Ouro, entre outros menos importantes, além de uma interessante quantia estimada de dois bilhões e meio de dólares de bilheteria.

A realização de Carros (2006) seria o último da parceira entre as duas empresas, devido a desentendimentos freqüentes entre Jobs e o presidente da Disney, Michael Eisner, algo que resultou na compra da Pixar pela impressionante soma de sete bilhões e meio de dólares, o que transformou Steve Jobs no maior acionista da empresa.

Por coincidência, WALL-E é cheio de referências estéticas à Apple, desde o I-Pod que o robô utiliza para ver seu filme preferido, passando pelo design de todos os outros personagens cibernéticos que aparecem no filme, principalmente EVE, que parece um periférico futurista criado pela companhia de Jobs. Deve ser legal ser dono de algo como a Pixar.

3 comentários:

Rodrigo disse...

O início, passado na Terra com os dois robôs, pra mim é obra-prima. Pena que no final o filme dá uma caída meio forte, com uma trama meio chatinha de sabotagem. Ainda asism é o melhor da Pixar.

Rodrigo disse...

Ah sim, o fime que o Wall-E assiste toda noite é Hello Dolly (Alô Dolly) e não Breakfast at Tiffany's (Bonequinha de Luxo).

CEL disse...

Pois é, Rod. Falei do filme certo com o título errado. Sorry.