terça-feira, agosto 5

Dedos de Prosa sobre Rock Progressivo

Amigos, amigos, eu estou ouvindo muito rock progressivo atualmente. A tal ponto que não consigo ouvir – como se deve – outro estilo musical. Isso está, inclusive, atrapalhando minha função de crítico, principalmente porque preciso emitir opinião sobre bandas totalmente anti-progressivas e o estilo nunca me pareceu tão amigável e hospitaleiro.

Talvez tenha a ver com o número cada vez maior de bandas atuais que pegam emprestado a estética do progressivo e a mascaram. Pode ser também um grande e permanente tédio com a modernidade, cada vez mais vazia e dominada por falsas novidades, personificadas em artistas sem conteúdo ou o quê dizer. Talvez os dois motivos juntos.

Há uma total falta de informações para o grande público sobre o que significa o termo “progressivo”, mesmo que algumas bandas badaladas em diferentes nichos mercadológicos sejam cria direta do chamado “prog rock”. Desde 14 Bis a Mars Volta, muita gente deve os fundilhos ao prog, criado e estabelecido no fim dos anos 60, mais precisamente na Inglaterra. Algo que sempre me irritou na crítica musical da grande/média imprensa foi o preconceito geracional com o estilo e a total falta de disposição para compreender o significado de discos e bandas progressivas ao longo dos tempos.

É como se o crítico de trinta anos – com infância nos anos 80 – fosse criado com raiva do irmão mais velho, que não emprestava os discos do Yes e do Genesis. Sendo assim, em busca do “moderno” e “atual”, o futuro escrevente rocker iria encontrar o movimento punk e seus rescaldos, o pós-punk e a new wave e os adotaria como ponto de partida para estabelecer seu gosto. Acreditem, essa cena é mais comum do que vocês podem imaginar.

O progressivo nasceu de uma mutação do rock psicodélico. Na época se definia por “psicodélico” o grupo que se valia do uso de drogas alucinógenas para compor – algo que acabou banalizado e descaracterizado com o tempo, principalmente porque todo mundo passou a se valer desse “aditivo” químico. O progressivo é, portanto, uma tentativa louvável de dar ao rock um status mais “sério” e “valioso” enquanto música.

Os arquitetos dessa vertente pensaram nos parâmetros da época para credenciar o rock para freqüentar os grandes salões do mundo adulto e o revestiram com uma roupagem clássica, erudita, além de um subtexto mitológico/mágico, que insinuava uma aproximação com a literatura. Era engraçado notar que os jovens músicos que integraram as primeiras bandas progressivas possuíam um background clássico, herdado da educação tradicional européia. Isso quer dizer que os sujeitos aprendiam a tocar música clássica no colégio e emprestavam essa visão para o rock, algo que aparecia muito mais como destreza/habilidade na execução de um instrumento do que na criatividade para compor.

Claro, isso num primeiro instante, pois, a partir de 1970, grandes discos progressivos foram feitos, lançados, magnificamente compostos e com músicas nos primeiros lugares das paradas de sucesso britânicas, em versões editadas de suas longas canções. Aliás, o formato das músicas também refletia o abandono da estética pop (instrumental de baixo, bateria e guitarra, refrão, duração de três minutos) em benefício de canções com mais de dez minutos de duração, com vários “movimentos”, lembrando sinfonias, sonatas e demais abordagens clássicas.

Num determinado momento, nada foi mais moderno e antenado que o rock progressivo. Bandas como Yes, King Crimson, ELP, Pink Floyd, Moody Blues, Genesis, apenas para mencionar as mais famosas, representavam o futuro, procuravam conectar seus discos a conceitos literatos, esclarecidos e não hesitavam em estender suas canções para fronteiras dos vinte, trinta minutos.

Tudo isso é muito legal e libertador. Você imagina algo assim nos dias de hoje? Até poderia considerar bandas como Marillion, Pendragon, Porcupine Tree ou mesmo os islandeses do Sigur Rós para ilustrar esse panorama, mas a imagem delas não é totalmente satisfatória diante da sensação de novidade que as primeiras incursões das formações setentistas tiveram lugar. O estilo foi tão democrático que proporcionou o surgimento pioneiro de bandas na Holanda (Focus), Itália (PFM, Le Orme), Alemanha (Kraftwerk, Tangerine Dream, Can), unidas pelo terreno comum da mistura de clássico com rock e com sucesso fora de seus países de origem.

O rock ficou velho, meus caros. A despeito do que sempre poderão afirmar, fica cada vez menos acessível ao jovem dos anos 00 o entendimento do que seus pais ouviam em 1970, 1980. E sempre tivemos vontade de chocar os pais ou, pelo menos, fazer tudo diferente do que eles poderiam pensar em fazer. Pais são fãs de rock, filhos não. Claro, é uma regra com muitas exceções, mas desconfortavelmente presente.

Na tentativa de quebrar o bloqueio de informações, aqui vai uma pequena lista pessoal de discos legais para você começar a sua exploração no progressivo. Experimente...E sugira os seus favoritos também.

Yes – Close To The Edge (1972)
Define o momento em que o Yes atingia a maturidade, algo que já se insinuara no disco anterior, Fragile (1971), também altamente recomendável. Aliás, a discografia do Yes é um bom indicativo do que o rock progressivo poderia proporcionar – para o bem ou para o mal.

Genesis – Lamb Lies Down On Broadway (1974)
É o último disco com Peter Gabriel nos vocais e marca o fim de uma era. O Genesis ainda seguiria digno até 1978, quando abraçou o formato pop.

Moody Blues – Seventh Sojourn (1974)
É o ultimo trabalho dos chamados “classic seven”, a seqüência de discos gravados pelo Moody Blues entre 1967 e 1974. Seventh Sojourn é um belo exemplo de progressivo sutil, sem grandes viagens instrumentais e se valendo de um formato mais “pop”.

Emerson, Lake And Palmer – Brain Salad Surgery (1973)
O grande disco do trio, ainda que seu trabalho homonimo de estréia seja sensacional. Aqui está a belíssima balada de Carl Palmer “Still You Turn Me On”, bem como as “impressões” sobre “Karn Evil”. A capa é um show à parte.

King Crimson – In The Wake Of Poiseidon (1971)
A grande banda progressiva, influente, ousada, genial. Esse é o segundo disco deles, com uma das músicas mais bonitas jamais feitas, “Cadence And Cascade”. Aviso: a discografia do Crimson, entre 1969 e 1975 é indispensável. O retorno da banda em 1980, totalmente reformulada, ainda geraria três discos essenciais para a compreensão do rock moderno (até hoje não igualado) – Discipline (1980), Beat (1982) e Three Of A Perfect Pair (1983)

Pink Floyd – Meddle (1972)
Este é o primeiro disco realmente progressivo do Pink Floyd e talvez o único, dentro da estética mais convencional do estilo. Faixas como “One Of These Days” e “Echoes” credenciam o antecessor de Dark Side Of The Moon e o que entende-se por “som Pink Floyd”.

Jethro Tull – Thick As A Brick (1971)
Clássico em todas as suas expressões, desde o encarte – que compunha as páginas de um jornal fictício – até a fusão perfeita de folk e progressivo pelas mãos do louco Ian Anderson. Aqualung, de 1970, também é essencial.

Renaissance – Prologue (1972)
Grande banda inglesa de segundo escalão, responsável por belos discos, dentre os quais esse é o melhor. Enxuto, cheio de canções pontuadas pelo vocal celestial de Anne Haslam, Prologue fala sobre o mar e as pessoas, de forma suave e belíssima. Também vale conferir Novella e Ashes Are Burning.

Premiata Forneria Marconi – Per Un Amico (1972)
A banda de progressivo italiano mais conhecida. O PFM surgiu no início dos anos 70 com uma sonoridade híbrida de Genesis e King Crimson, evoluindo para um estilo próprio. Vale ouvir a versão em inglês desse disco, gravada para o Reino Unido no ano seguinte, Pictures Of Ghosts.

Marillion – Script For A Jester’s Tear (1981)
O primeiro disco da grande banda de “neo-progressivo” escocesa, responsável por belíssimos trabalhos conceituais entre 1981 e 1988, quando teve o vocalista e compositor Fish à sua frente. Depois, a partir de Season’s End (1989), Steve Hogarth assumiu a liderança do Marillion sem o mesmo brilho. Em 2005, no entanto, a banda reeditaria seus bons momentos com o belo disco Marbles.

8 comentários:

FredFre disse...

Você está com o Progressivo assim como estou com o Reggae, atualmente. Reggae e suas variações, das quais gosto de praticamente todas, em especial o Dub.

De tudo que há no Progressivo eu só tenho conhecimento REAL de Pink Floyd, do qual o Meddle é justamente o meu "preferido".

Sobre os críticos de 30. No meu caso - crítico wannabe - não teve parente mais velho que ouvia. Eu não ouvia Progressivo sequer de "rebarba". Acho que os Ramones me pegaram de tal jeito naquela época da adolescência que desde lá Progressivo sempre me pareceu "masturbação de instrumento", embora eu saiba que não é necessariamente isso. Rola uma certa predisposição negativa com o Progressivo mesmo. Da minha geração muita gente não é chegadaa ouvir.

CEL disse...

Fredão, meu mesmo passei grande parte da minha vida sem prestar a devida atenção ao progressivo. Há algum tempo, porém, está descendo muito redondo. Dá uma ouvida carinhosa nesses discos da lista, ela é bem democrática e nada hermética.

Leitor Eventual disse...

Ótima lista CEL! Gostaria de ver suas reflexões sobre o preconceito sofrido por esse gênero musical melhor desenvolvidas.

Acho que uma boa parcela da mídia rocker e quase toda grande mídia não dão o devido valor ao rock progressivo.

Acho que a própria Rock Press da pouco espaço.

Abraços.

CEL disse...

Estou preparando um novo post. Muita gente se queixou da lista, sugeriu este ou aquele disco. Outros pediram mais comentários. Ou seja, será uma suite progressiva em dois (ou três) atos, ou melhor, posts. :))

Avante Flamengo disse...

Meddle é certamente um dos meus discos de cabeceira.

Quem conhece a minha banda (NONSENSE), sabe que sou um aficcionado por música que tranpira o espiritual. Aquele tipo de música que passa muito além de acordes e frases.

Meddle para mim é tão progressivo que chega a ser vanguarda. E música vanguarda é algo que me excita. O mais incrível de um disco como meddle, é ficar pasmo, estático ali, vendo/ouvindo/esperando os barulhinhos. E o mais impressionante é que hoje em dia, mesmo 30 anos depois, aquilo sôa tão inovador que chega a dar raiva...

Eu não sou o maior fã do progressivo, mas meedle é muito mais do que progressivo, ele é algo que além da procura insana por música revolucionária.

Abraços.

Bruno Eduardo

Adriano Mello Costa disse...

Nunca gostei muito de progressivo. Claro que quando garoto escutar Pink Floyd era o maximo. Gostava de Genesis, pois tocaca muito na casa. Concordo com muita coisa sua no texto. Abs.
P.S: Vou dar mais uma chance pro Yes por causa do seu texto :)

mel disse...

ahhh queridão, lista mais q perfeita...escrevi uma matéria em 2007 sobre o ecletismo e...uau tensão total :) e td por causa de uma única frase q disse ...'imagine se Page só ouvisse roquenrol britânico? se não tivesse bebido na fonte do blues americano? não teria existido Led...e digo mais hehe, toda e qualquer música moderna é produto da mistura, do ecletismo, senão estaríamos batendo tambor como os homens pré-históricos até hoje uga uga rsrs

ai seria o orgasmo musical dos "cabeças fechadas"...

seria uma boa pedida, né Carlos?! hehe


bjos.

Carpatia disse...

Tenho 23 anos e toco numa banda de brega. Em Cuiabá. Mas só escuto - em sua maioria - o progressivo. Na minha lista, também incluiría nestes o primeiro do Gentle Giant e o More, do Floyd, não pelo seu apelo estético enquanto progressão, mas pela ousadia de fazer um álbum encomendado ser tão experimental (leia-se cair de cabeça em vertentes como o pop, o hiponga e o metal, que nasceria nas décadas subsequentes). Mais ou menos isso.