segunda-feira, setembro 8

Roger Hodgson Sorri

Eu estava na Praça da Apoteose em 1988 vendo o show do Supertramp. Era o último da noite, após exaustivas e insossas apresentações de Lulu Santos e Marina Lima. Sabíamos todos que a banda inglesa viria sem a presença de Roger Hodgson, o "vocalista da voz fina", o sujeito que alcançava agudos extremos e não parecia nem se cansar.

O Supetramp vinha na turnê de lançamento do disco Free As A Bird, o segundo sem a presença de Hodgson (Brother Where You Bound, de 1985 fora o primeiro trabalho sem Roger) mas minha curiosidade não era pelos discos mais recentes. Eu queria ouvir "The Logical Song", "Hide In Your Shell", "School", dentre tantos sucessos da banda, mas sabia que Mark Hart, guitarrista e vocalista dublê de Roger não daria conta do recado - o que realmente aconteceu.

O tempo passou, minha admiração pelo Supertramp só fez aumentar e meus questionamentos sobre a crítica musical ganharam vulto. A banda sempre fora alvo fácil de detonações infinitas, principalmente porque seu som tinha nascedouro no rock progressivo inglês dos anos 70, agravado pelo fato de Roger e Rick Davies (o vocalista da voz grossa) serem compositores pop de mão cheia, o que dotava as composições do Supetramp de um notável acento radiofônico, sem abrir mão do instrumental virtuoso. Mais que um guilty pleasure, ouvir a banda sempre foi um dos caminhos mais fáceis para aquele momentum da vida em que tudo parece dar certo e que é lembrado como tempo perfeito, sem problemas.


Com essa impressão adentrei o Vivo Rio na sexta-feira, dia 5 de setembro para ver o segundo show de Roger Hodgson na Cidade Maravilhosa, dez anos depois de sua primeira vinda. O clima era de expectativa e certa apreensão pois o homem vinha divulgando seu DVD Take The Long Way Home - Live In Montreal, no qual recria várias canções do Supertramp em versões acústicas, todas de bom gosto inquestionável, mas insignificantes diante da perspectiva de ouvir os arranjos originais com banda.

Minha esposa, mais fã dos ingleses do que eu, estava previamente aborrecida com a idéia de ver Roger desperdiçando sua voz numa balela unplugged, impressão que sumiu ante a primeira visão da banda no palco, montada especialmente para as apresentações no Brasil. Lá estavam o baterista Bryan Head, o baixista Jesse Siebenberg e o versátil Aaron McDonald, responsável por harmônica, saxofone e teclados. E Roger, todo de branco, olhar doce, expressão tranquila, tentando falar português com anotações do tamanho de uma folha de papel A4. Parecia uma espécie de monge, de ser tranquilo e razoavelmente elevado. Ele que ficara inativo por quase toda a década de 1990, após sofrer fraturas sérias nos dois pulsos em 1988, época de lançamento de seu segundo disco solo, Hai Hai.

A primeira canção já fez os corações tremerem: "Take The Long Way Home" apareceu gloriosa, do alto de seus 29 anos de idade, com atmosfera perfeita e execução idem, no esquema "estamos reproduzindo fielmente os arranjos do Supertramp e não estamos nem aí para mais nada". E nesse esquema vieram "Give A Little Bit", "Hide In Your Shell" e duas canções solo do homem, as supertrâmpicas "In Jeopardy" e "Lovers In The Wind". O povo logo viu que estava diante de algo grandioso e provavelmente inesquecível.

Supertramp e Roger Hodgson se separaram em 1983, após o lançamento do fabuloso disco Famous Last Words. Nesse ano a banda deu continuidade à fileira de hits que o álbum anterior, Breakfast In America (1979) iniciou, principalmente com a execução maciça de "It's Raining Again" e "My Kind Of Lady". Desentendimentos criativos e pessoais entre Rick Davies e Roger decretaram a saída deste e o início de uma respeitavel carreira solo. In The Eye Of The Storm (1984) foi lançado imediatamente após a saída do Supertramp e causou mal estar entre as duas partes. O disco era totalmente voltado para a sonoridade da banda e, se fosse misturado com Brother Where You Bound (disco do Supertramp de 1985), teríamos um excelente álbum, na melhor tradição dos grandes trabalhos deles. Todo esse clima adverso, a substituição vocal por Mark Hart e a ação do tempo acabaram afastando Roger das canções que ele tocou no Vivo Rio. É a turnê de reconciliação do homem com ele mesmo, com suas lembranças e seus coelhos na cartola. É uma turnê extremamente pessoal, daquelas que levam multidões a cantar.

No Rio não foi diferente. Após as cinco primeiras músicas, os 2 mil felizardos presentes ao Vivo Rio caminharam pelos caminhos de ida e volta para casa, propostos pelo nome da canção. Gente de classe média, na faixa dos 30/40 anos, alguns com filhos, transmitindo lembranças e legados, como deve ser. Roger e sua banda revisitaram 15 canções de todas as fases do Supetramp, indo dos sucessos "Dreamer", "The Logical Song", "Breakfast In America", passando por surpresas como "Easy Does It", "Child Of Vision", "Don't Leave Me Now" e chegando ao momento mágico do show, quando Roger sentou-se ao piano de cauda que dominava o centro do palco e disse: - A próxima canção que eu vou tocar foi escrita há bastante tempo e pensei numa orquestra quando bolava o arranjo. É a primeira vez que toco essa música desde que saí do Supertramp.


Trememos, eu e Maria, minha esposa. Ela na Ilha do Governador, eu em Copacabana, ao longo dos tempos, cantamos, dublamos e tocamos todos os instrumentos do Supertramp de forma imaginária e "Fools Overture" sempre foi um momento máximo. A suite progressiva de 1977, com instrumental futurista mesclado com piano e saxofone sempre foi um ponto alto. Ao primeiro acorde da canção, imediatamente vi uma das minhas certezas - a de que nunca veria essa música ao vivo - cair por terra. A execução perfeita, a sustentação de McDonald à parafernália de efeitos especiais, entre eles o famoso dircurso do Primeiro Ministro inglês Winston Churchill, no qual ele diz que os ingleses lutarão nos campos e cidades, tudo foi perfeito e o próprio Roger Hodgson se espantou com o efeito causado na multidão.

Após o intervalo protocolar, a banda volta para revisitar "School", outro highlight da infância, na qual eu me transformava num virtuoso solista ao piano e a comemoração final com "It's Raining Again", uma das músicas que mais clamam por uma dança à dois nesse mundo.

Dessa vez, em 2008, dancei "It's Raining Again" com minha esposa, algo que sempre quis e só descobri na hora que Roger sorria diante da multidão que dançava à sua frente. Talvez em algum momento da década de 1980, eu sempre soubesse que a dançaria da maneira correta e com a pessoa certa. Dito e feito. E, ainda agora, espero, Roger Hodgson sorri.


Set List
1) Take the Long Way Home
2) Give a Little Bit
3) In Jeopardy
4) Hide in Your Shell
5) Lovers in The Wind
6) A Soap Box Opera
7) You Make Me Love You
8) Easy Does It
9) Sister Moonshine
10) Breakfast in America
11) Along Came Mary
12) The Logical Song
13) The More I Look
14) Child of Vision
15) Lord Is It Mine
16) Don't Leave Me Now
17) Dreamer
18) Fool's Overture
BIS
19) School
20) It's Raining Again


2 comentários:

Nena disse...

lindo, maravilhoso, fantastico, super, supertramp.

Selma disse...

Não sei se o melhor foi imaginar a performance das canções ou vc e Maria juntos num show desses...Bjs aos 2!