quarta-feira, junho 25

Ana, Joss E A Quitanda das Vaidades

Ontem eu zapeava pelos canais fechados e me espantava com a pobreza da programação que a maioria do povo tem à disposição em suas televisões. O humor com validade vencida do Casseta & Planeta Urgente, o filme reprisado do SBT, a inacreditável novela mutante da Record e, bem, o Superpop da Rede TV, com Luciana Gimenez à frente. Passei pelo programa na hora em que o funk carioca rolava solto, com um agrupamento de seres lamentáveis tomando o palco, “cantando” e dançando as “músicas”. O indefectível MC Creu e suas dançarinas – Mulher Jaca e Mulher Moranguinho – ,o MC Frank e sua dançarina – a Mulher Melão – o grupo Malhafunk e a sobrinha de Gretchen, Caroline Miranda, ao lado do MC Lips. Sim, meus senhores e senhoras, eu anotei esses nomes, claro. Não me estranha, entretanto, o conceito hortifrutigranjeiro que se assenhorou das novas musas da mídia classe B/C. A tal Mulher Melancia, ex-dançarina do MC Creu, já está no seu décimo-segundo minuto de fama (em tese só faltam três minutos para que ela suma de vez) completa o balcão da quitanda das vaidades. Melancia, melão, moranguinho, jaca e, numa expansão de mercado, há também uma certa Mulher Filé, cujas informações maiores são desconhecidas. A tal sobrinha de Gretchen, que jura ser virgem aos 18 anos de idade e desenvolvendo uma versão “funk” das coreografias eternizadas por sua tia nos anos 80, é a mais interessante da quitanda. Mas não pode abrir a boca ou pensar (sic). A tal “canção” que ela “interpreta” ao lado do tal MC Lips é “Meu Selinho”, vem com uma letra sacana de duplo sentido, fazendo analogia entre o “selinho” que é beijo e que é o preferido da “moça” e aquele que denota a virgindade propalada por ela, este, o preferido de MC Lips, que, apesar da disposição em conquistar a rebolativa morena, não me pareceu muito chegado.

Triste, nada menos que isso.

A certeza de que essa escrotização da beleza feminina é algo setorial e (esperamos) passageiro fica maior quando me deparo, umas doze horas depois, com as presenças de Joss Stone e Ana Ivanovic na programação aberta, proporcionada pela Sky.

Me pergunto se a maioria das pessoas que é fã da quitanda das vaidades tem noção da existência da bela tenista sérvia, número 1 do ranking mundial ou da cantora pop inglesa, que esteve recentemente no país. Concluo que não. Ivanovic – que suou o vestidinho branco para vencer a francesa Nathalie Dechy hoje, pela terceira rodada do Torneio de Wimbledon – é uma pequena princesa balcânica. “Pequena” talvez não seja o termo exato, pois a sérvia, de 21 anos, possui interessantes 1,85m de altura e exibe um biotipo moreno irresistivelmente belo, além de parecer uma menina comum. Claro, Ivanovic já faturou cerca de cinco milhões de dólares desde que começou a carreira, o que a destaca das “meninas comuns” que vemos por aí. Ela é mais interessante – aos olhos desse que vos escreve, pelo menos – que a russa Maria Sharapova, mas isso já é outra discussão. Joss Stone também tem beleza espantosa, simpatia cativante (comprovada in loco no show que ela deu no Vivo Rio) e alguns milhões na conta bancária, tendo em vista as vendagens de seus três discos, The Soul Sessions; Mind, Body & Soul e Introducing Joss Stone, lançados entre 2003 e 2007. Joss apareceu para o mundo com 16 anos e hoje, com a mesma idade de Ana Ivanovic, é uma jovem pra lá de bem sucedida. E o que elas têm a ver com os padrões de beleza da televisão brasileira? Nada, aparentemente, né?

A relação é clara, mesmo que não pareça. Qual a diferença dos modelos de inspiração para a juventude planetária? As meninas da Quitanda das Vaidades e a dupla Ivanovic-Stone? Quem é mais interessante para as jovens? Mesmo que todas elas – mais e menos vulgares – atraiam o público masculino por diferentes motivos e mesmo fim, todas elas atraem o publico feminino pela mesma razão. São exemplos de vitórias pessoais que se tornaram publicas e são marteladas pela mídia em seus diferentes canais. Muitas meninas brasileiras da classe média podem achar que rebolar num programa de televisão, posar para revistas masculinas e faturar um milhão de reais num Big Brother Brasil é o máximo em termos de objetivo para toda uma vida. É uma carreira que acaba tão cedo como, por exemplo, a carreira de Ivanovic, lá pelos trinta anos de idade. E as meninas do Primeiro Mundo? Também devem achar o mesmo, oras. O ser humano é igual em todo o planeta, pelo menos em essência e convicções. A certeza que ficou dessa pequena ponderação sobre mulheres é que nós – os homens – estabelecemos o padrão de beleza variável de acordo com várias circunstâncias e fatores. Os que desejam um contato mais objetivo com a mulherada devem preferir a mesma objetividade que as mulheres-fruta apresentam em suas aparições. Os que ainda pensam em etapas intermediárias podem preferir Ivanovic ou Stone, principalmente pelo fato delas serem virtualmente impossíveis e as fantasias mais legais são aquelas que permanecem assim por um bom tempo, talvez pra sempre. Quem não gostaria de jantar com Ana Ivanovic e vê-la se interessando por fatos corriqueiros do cotidiano ou descobrindo afinidades de gosto? Ou quem acharia dispensável levar Joss Stone ao cinema para assisitir um desses filmes de mulherzinha e vê-la se emocionar com uma cena qualquer? Garanto que um número enorme de sujeitos mundo afora adoraria fazer esses programas com as moçoilas. Assim como há uma multidão igualmente maior que preferia uma bela salada de frutas bem rápida, sem tempo para pensar qual fruta foi servida. Há gosto, tempo, vontade e disposição pra tudo.

Agora, cá entre nós: fica difícil convencer a esposa de que esse texto tem pretensões puramente sociológicas, não é? Talvez a presença de gente como Brad Pitt, George Clooney e até um certo Tom Wilkinson no imaginário feminino nos dê a chance desses passeios no mundo da fantasia. Do contrário, estaríamos perdidos e mal pagos. Não acha?






Um comentário:

Maria disse...

Viva o Tom Wilkinson!!!! [:)]