domingo, junho 22

Weezer Vermelho




Rivers Cuomo, cantor, guitarrista e cérebro do Weezer completou 38 primaveras no último dia 13 de junho e está, certamente, vivenciando sua crise da meia-idade. Como eu sei? Faço meus 38 anos no dia 10 de julho, ou seja, pouco menos de um mês após o líder da banda californiana.
A crise da meia-idade é algo que não dá pra ser simulado, fingido ou banalizado. É uma sensação autêntica e só perceptível para quem a experimenta e faz colocar em dúvida quase tudo que se aprendeu até o último dia do ano 37 acabar. Ou do ano 39, 40, aliás, essa é outra característica dessa fase estranha, ela não tem uma hora exata para acontecer. Quando percebemos, simplesmente estamos nela e, de certa forma, não queremos sair..

O ser humano que está na meia-idade questiona as coisas exatamente como um adolescente, só que com a (des) vantagem de se achar mais versado em assuntos diversos, o que só torna o sentimento mais difícil de ser digerido e assimilado. Perguntas do quilate de “como eu cheguei até aqui?”, “por que eu não escolhi outra carreira?” ou ainda “quem é essa pessoa no espelho me olhando enquanto eu faço minha barba?”. Sim, não nos reconhecemos mais em muitas das situações que nos definem sutilmente ao longo do dia, das maneiras mais cotidianas e naturais, sem que isso pareça totalmente errado. Parece que necessitamos dessa crise, como se ela fosse nos reafirmar para nós mesmos. Essa conversa mole e fiada é uma maneira de introduzir o verdadeiro objeto desse texto: o novo disco do Weezer.

Eles são, por definição, um bando de nerds integrando um grupo de rock, mesmo que a figura de Cuomo se destaque da maioria e o coloque como, talvez, o único nerd presente na banda. O novo trabalho deles, homônimo e já apelidado pelos fãs de “Red Album” é mais um daqueles discos coloridos que o conjunto lança a cada sete anos, talvez para mostrar a novas gerações o que eles pensam e são. Ou não, talvez não seja nada disso. O ponto é que os discos homônimos de 1994 (Blue Album) e 2001 (Green Album) serviram para mostrar/lembrar o fã de música pop de alguns preceitos interessantes e que valem muito.

Vejamos o Blue Album, disco de estréia do Weezer. Em 1994, após dois anos de garagem e shows amadores em buracos da cena alternativa de Los Angeles, o Weezer conseguiu seu contrato com a DGC, mesma gravadora que havia lançado Nevermind, o disco do Nirvana que mudou a cara do rock alternativo e sua compreensão. Ao sabor do vento que soprava as velas do tal “pós-grunge”, o quarteto californiano colocou sua cara (e seus óculos) nas telas da MTV através do hit “Say It Ain’t So”. O som era puro “dejá ouvi”, misto de Pixies e Van Halen ou de Nirvana e Kiss, misturando as guitarras pesadinhas com melodias que grudavam na mente como chiclete.

Após o primeiro hit, vieram “Buddy Holly” (e seu clássico clipe), “Holiday”, “Undone (The Sweater Song) e o Weezer ganhou o mundo, via MTV e baseado na necessidade nunca declarada de substituição do Nirvana, algo que foi mais ou menos logrado pelo lançamento de Definitely Maybe, primeiro disco dos ingleses do Oasis.

Corta pra 2001.

O Weezer retornava ao mundo dos vivos após um hiato de seis anos. O segundo disco, Pinkerton, gravado e lançado como um suposto álbum conceitual, não manteve a banda nos píncaros do sucesso. Talvez Cuomo não tenha se sentido à vontade com o peso que o showbiz reservara para ele e, não só fez um disco “difícil” como se retirou para Harvard, famosa universidade americana, na qual ele concluía o curso de Inglês.

O tal Green Album, de 2001, é um retorno à sinceridade nerd e iluminou as mentes de uma nova geração de fãs, imediatamente capturados por canções como “Photograph” ou “Island In The Sun”, que se encharcavam no romantismo confessional sem resvalar para o que foi chamado (erradamente, diga-se) de emo-rock, o tal rock emocional, que gerou uma fornada lamentável de bandas que conquistaram o Olimpo rocker. Se o Weezer não é “emo”, o que ele seria então? A mesma banda de 1994, mais velha, na casa dos trinta anos, devidamente saída da pós-adolescência e mais tarimbada sobre as coisas. A vida americana e seus desdobramentos continuavam alimentando a pena de Cuomo e isso era o que poderia acontecer de melhor.
2008.

O que pensar de um novo disco do Weezer? E o que pensar de um dos tais discos coloridos deles? Entre o álbum verde e o vermelho vieram Maladroit (2002) e Make Believe (2005), mais pesados, mais exagerados, menos intensos, ainda que guardem canções memoráveis como “Haunt You Everyday”, presente no último e que marca a entrada da banda no território das baladas, algo que não é para amadores. Aliás, uma digressão: quando uma banda de rock faz uma balada é porque está sentindo algo. Claro, esta regra não se aplica às formações flácidas e vazias de significado, afinal de contas, grupos de “rock” ganham o mundo e as mentes com (bo)baladas o tempo todo. No caso do Weezer, não. A regra é clara e válida.

Além dos dois discos, Cuomo lançou em 2007 uma compilação de gravações caseiras chamada Alone: The Home Records Of Rivers Cuomo, cheia de preciosidades, entre elas um rascunho sensacional de “Buddy Holly”.

O tal Red Album é, portanto, um disco de um sujeito que está na crise da meia-idade, se questionando sobre tudo e todos, lembrando de seus vinte anos, das ruas, das pessoas, dos colégios, dos filmes, de tudo. O Weezer é composto por sujeitos que poderiam ser os adolescentes nerds dos anos 80, aqueles que se davam bem no final das comédias Namorada de Aluguel, Gatinhas e Gatões, A Garota de Rosa Shocking, Admiradora Secreta, entre outras. Por isso é tão sincera essa nostalgia “jovem” que Rivers Cuomo experimenta no novo trabalho.

Há uma canção em especial que entrega o ouro para o ouvinte. Em “Heart Songs” eles enumeram canções e artistas queridos, citados nominalmente ou por suas canções (ou ambos) e traçam uma linha cronológica que abarca infância, adolescência e a época que assinaram seu contrato. Poucas vezes algo tão sincero foi escrito no rock, algo que faz os contemporâneos de Cuomo sentirem uma pontada doída no coração, que desencadeia um flashback incessante de imagens que compreendem formaturas, namoradas, ex-namoradas, pessoas, cheiros, séries de televisão, tempos que nos parecem indubitavelmente melhores.

O trecho que marca a audição de Nevermind é digno de figurar entre os momentos de ouro do rock’n’roll de todos os tempos, tamanha a sinceridade e a necessidade de se lembrar, sim, do que ouvimos, daquelas canções que nos definem, que nos identificam perante uma multidão de ouvintes de segunda mão. Veja:

“Back in 1991
I wasn't havin' any fun
'Till my roommate said
"Come on and put
A brand new record on"
Had a baby on it
He was naked on it
Then I heard the chords
That broke the chains
I had upon me
Got together with my bros
In some rehearsal studios
Then we played
Our first rock show
And watched the fan base
Start to grow
Signed the deal that gave
The dough to make
A record of our own
The song come
On the radio
Now people go
This is the song”

Sem cinismo, sem falsa idade, sem qualquer rodeio. Talvez haja um paralelo involuntário entre “Heart Songs” e uma faixa do primeiro disco da banda, “In The Garage”. Na letra desta, Cuomo tece uma declaração de amor ao lugar em que ele se sente seguro, onde há posters do Kiss, bonecos dos X-Men e isolamento acústico para tocar sua guitarra com os amigos, aqueles com quem compõe suas “silly rock songs”. Agora Rivers revisita a tal “bolsa marsupial” que possuímos, aquela que traz nossas bulas de remédio e que podem (e devem) ser sempre consultadas.

O “Red Album” é sensacional. Parecidíssimo com os outros discos da banda, mas com essenciais avisos de que algo mudou. Há uma cover de “The Weight”, o maior sucesso da Band, do disco Music From The Big Pink (1968), que mostra uma nova influência no cânon da banda. Também há músicas maiores, na melhor tradição das canções maiores gravadas pelo Weezer, “The Greatest Man That Ever Lived”, “The Angel And The One” e aquelas outras músicas que são “landmarks” da sonoridade da banda, como “Troublemaker”, capaz de identificar o Weezer imediatamente.

Nenhum momento do disco, entretanto, é mais delicioso que “Heart Songs”. Ouça cantando a letra e tente escrever a sua própria versão de canções e tente substituir o momento “Nevermind” por algo tão marcante em sua vida. Torço para que você encontre facilmente ou, quem sabe, descubra que a banda tem mais esse traço em comum com você. Boa sorte.

2 comentários:

Rodrigo disse...

Beleza de texto!

Rodrigo Gonzatto disse...

concordo. bela resenha!